Tuesday, December 09, 2025

O grito do horizonte

Caminhava sem medo, em seu cavalo domado

Com a certeza de estar em terreno a ser desbravado

O brasão reluzente anunciava a recepção

De quem um dia havia matado o dragão

Mas queria alguém do outro lado

Ter autoridade pra dizer não

E tirou do cavalo domado o brasão

Pois só podia usar, quem ousou matar o dragão

Na volta da recepção, embriagado de exaustão

Perdeu o cavalo entre os demais da multidão

E por lá deixou quem um dia aceitou compartilhar a missão

Seguiu caminho, agora com medo e lentidão

Até encontrar no horizonte um novo dragão

Só tinha uma chance, o cavalo não

Que a galope regressou à multidão, como quem não reconhece a missão

E por lá estava sozinho, o cavalo domado, sem medo e brasão

Ensinando a lição, de que sem ele, não há recepção


Sunday, July 27, 2025

Tanto faz

Tanto faz

Ser guerra ou paz

Tanto faz

Ter menos ou mais

Tanto faz

Pra frente ou pra traz

Tanto faz


Não deu certo, eu sei

Eu sei que tentei

Mas de novo errei

E não perdoei

Se não conquistei

Tudo que sonhei


Agora eu to assim

Um anão de jardim

Vendo o tempo passar

Sem passar por mim

 

Agora eu to assim

Um anão de jardim

Vendo o tempo passar

Sem passar por mim


Tanto faz

Ser guerra ou paz

Tanto faz

Ter menos ou mais

Tanto faz

Pra frente ou pra traz

Tanto faz

 

Tuesday, December 08, 2020

Interbairros 2


Cowboy do Sítio Cercado estava

por Pinheirinho

após invadir a Campina

do Siqueira

e dela fazer um

Novo Mundo


Tinha Boa Vista

o Cowboy

devoto de Santa Cândida

na mira o Centro do alvo

que abriria o Portão

do Prado Velho

e libertaria seu cavalo

Babão


Era Centenário

o Batel encalhado

às margens do Barigui

que após uma enchente

voltou a flutuar e a conduzir

o Cowboy ao Bom Retiro


Sunday, October 25, 2020

Registros de Pandemia

Eu já sabia da sua fama. Tinha escutado muitas de suas histórias, mas nunca as levei a sério ou as ouvi com a devida atenção. E também nunca, absolutamente nunca, passou pela minha cabeça de que um dia fôssemos apresentados, tão pouco ficássemos amigos. 

E esse afastamento era meu ponto de segurança para que a desconfiança fosse legítima. Ou, principalmente, que me permitisse julgá-lo. 


E assim foram os anos. Na escola, você estava lá, como professor, mas eu não misturava sua ideologia a minha formação.


Estava lá, nos almoços em família, mas eu não misturava sua tradição a minha formação.


Estava lá, nos meus desafios, mas eu não misturava fé às minhas obrigações.


Até que um dia tivemos o primeiro contato. Uma pessoa em comum, da minha mais alta importância, nos apresentou. Você me cumprimentou e respeitou minha desconfiança. Não conversamos, não trocamos contatos, tão pouco fui stalkear seu perfil para saber sobre suas histórias. E assim o tempo passou. Passaram-se anos. Até que um dia procurei ajuda para superar um problema. E quando cheguei lá, você estava lá. E então deixei de desconfiar. Você me viu entrar, eu também te vi, trocamos olhares de quem sabia que um dia já havia sido apresentado, porém foram olhares de quem sabia que não havia intimidade. Poderia, inclusive, facilmente um de nós ter esquecido desse encontro. Mas não pude esconder minha surpresa em saber que ali também era seu local de trabalho.


Anos se passaram e sempre fui muito bem atendido por seus assistentes. Entendia que meus problemas eram poucos para chegarem até você. Inclusive eu não fazia ideia de como se chegava até você.


Até que um certo dia, no elevador, conversando com a vizinha, eu relatei as dificuldades que eu passava na vida. Ela ofereceu ajuda. Essa senhora foi até a minha casa, no horário combinado, e arrumou tudo o que estava desarrumado. Antes de sair, eu a agradeci muito e ela disse que imagina, ela tem um filho e que fez por mim o mesmo que teria feito por ele. Por coincidência, ou não, ela o chamou até o meu apartamento, para que fossemos apresentados. E adivinha quem era? Você! 


A partir desse dia, nos adicionamos nas redes sociais e começamos a trocar likes. Você começou a conhecer um pouco sobre mim e eu um pouco sobre você. O fato de sermos vizinhos, contribuiu para um vinho com pão aqui em casa. Um rolê totalmente aleatório, sem termos combinado nada, mas que aconteceu. E assim fizemos. Conversamos. 


Você pediu para que eu me despisse de desconfiança. E se mostrou despido de julgamentos. E só assim foi possível. Conversamos.


Foi rápido, mas foi incrível. Pude confirmar suas histórias e assim entender quem era. Você prometeu voltar, mas não disse quando. E esse novo dia chegou. Novamente rápido, novamente incrível. E a partir daí eu já morria de admiração por você.


Até que a verdade veio à tona. Foi durante a pandemia. Logo no início você me procurou e perguntou seu eu precisava de ajuda. Eu disse que sim. E prontamente você se pôs a me ajudar pessoalmente. Conversamos diariamente, o dia todo, por muitos dias, enquanto o número de mortos crescia. E conversar com você era um aprendizado que fazia muito bem. Contar com sua disposição em me ajudar naquele momento, era algo que inevitavelmente se transformaria em amizade. Até o que o número de mortos começou a reduzir e as nossas vidas a voltar ao normal, dando fim às nossas conversas. Consequentemente afastando a nossa amizade. Afinal de contas, tínhamos muito trabalho a fazer.


E é por isso que te escrevo hoje. Coloco essa carta sob sua porta, para que a leia quando chegar. Quero que saiba que não consigo mais viver sem a tua amizade. E que a nossa amizade não é só de uma via. Que eu estou aqui para o que precisar, pois conheço teu trabalho e sei que posso ajudar. E agradecer por tudo o que fez e faz por mim. Sei que ainda fará muito mais, e só por isso me sinto inferior, embora você mesmo tenha me ensinado que o que sente por mim é bem maior do que o que sinto pelas coisas mais belas desta Terra. Enfim, você é incrível e gostaria que soubesse que sinto isso de ti, pois nunca sabemos o dia de amanhã, principalmente numa pandemia. 


Sunday, July 19, 2020

Office PlayBoy

Era mais um sonhador
Nasceu sem pai, mas tinha amor
E desde cedo, conheceu a dor

Do preconceito
Do protetor
Do seu Ogum Babalaô

E assim cresceu
Na ponta da lança
Brilhava a esperança

Mas o sonho
Era outro
E caiu na tentação
iate e moet chandon
Garoto sangue bom

Desviou o dinheiro
desviou caminho
Mas era feliz o menino

Ah, mas era feliz o menino
Até que um dia o gatilho
Mudou todo o destino

E hoje seu protetor
Lhe olha nos olhos em busca daquele amor
Olha pra ele, menino
E diz que não acabou

Monday, June 08, 2020

Carta a um amigo

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita

Mas te escrevo, como respeito aos nossos encontros.
Tenho aqui guardado alguns de seus discos,
inclusive de Chico Buarque.

A coisa aqui ta preta.
E infelizmente imagino que não tenha passado pelos melhores dias por aí.

Você disse combater o bom combate.
E sou testemunha do seu esforço.

Você disse ter completado a corrida.
E sou testemunha da sua chegada.

Você disse ter perseverado na fé.
E sou testemunha das graças.

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades.

Mas se a vida até aqui me foi boa,
é porque fui seu bom combate.

Se hoje eu sou alguém,
é porque você completou a corrida.

E se hoje lhe escrevo,
é porque perseverou na fé.

Deus sabe o quanto é difícil pra mim deixar passar o vento.
Deus sabe o quanto é difícil pra mim deixar escorrer a água.
Deus sabe o quanto é difícil pra mim deixar vibrar o som.
Deus sabe o quanto é difícil pra mim deixar a vida viver.

Mas sem Deus,
Ninguém segura esse rojão.
E o que é Deus se não o amor.
E o que é o amor sem perdão?
Por tempos fui duro em lhe perdoar. Sabemos.
E eu sabia que de você só emanava amor.
Se o errado era eu, por que então eu julgava como errado você?
Se me bastam os discos e a bola de basquete,
o caderno passado a limpo,

as aulas particulares de matemática,
as medalhas da natação,
a cura da bronquite,
o judoca que há mim.
A caligrafia e o tom de voz,

as filhas, hipocondrias e epifanias,
gentileza, empatia e vitória.
Não do seu time,
como eram iniciadas as ligações telefônicas dos domingos à noite.
Meu caro amigo me perdoe, por favor.
Já sei que passas bem.
Que estás curado.

E que não lhe fiz uma visita.

Passo dificuldades,
mas sinto estar combatendo o bom combate.

Ainda tenho uma longa corrida,
mas espero completá-la.

Embora eu me sinta abandonado,
não deixo de perseverar na fé.

Deus tem um propósito para mim.
E você fez parte dele.


Obrigado!

A todo pessoal,
Adeus






Monday, May 04, 2020

Vamos dar uma festa

Resolvi dar uma festa.

Chamei os chegados, muito som, bebida, piscina, lua cheia, céu estrelado, temperatura agradável. A diversão, o amor, a dança, os sorrisos eram tudo uma coisa só.

Tudo corria bem até que um forte barulho de motores passou a ser o centro das atenções.
Eram motos dos mais variados estilos e carros não muito comuns em estacionamentos de empresa. Deles saíram uns caras que nada tinham a ver com o clima da festa. Eles foram se juntando. E juntos foram entrando. E entraram todos juntos. Eles todos juntos eram poucos, mas não se importavam com isso, pois davam conta de ocupar o dobro, o triplo do espaço ao qual tinham direito pela física.

Chegaram no som e escolheram as suas próprias músicas. Trocaram as bebidas pelas que trouxeram. Hostilizaram os convidados e me constrangeram. Tudo isso sem nenhuma violência. Mas estava claro que não hesitariam em usá-la em caso de necessidade, inclusive sem que ao menos tivesse algum motivo.

Como anfitrião, perguntei: quem são vocês?
Um deles se aproximou e respondeu: como assim, quem somos nós?
Ele olhou para todos e perguntou: vocês não sabem quem nós somos?
E ao perceber que ninguém fazia ideia do que estava acontecendo, começou a rir. E juntos riam. Gargalhavam.
E ainda rindo, olhou no fundo dos meus olhos e disse: nós somos a gangue Seus Erros de Sempre.
E o que fazem aqui? Perguntei, sem entender nada.
Oras, o que Seus Erros de Sempre Fazem aqui? Perguntou para que todos ouvissem.
Nós viemos fazer o que sempre fazemos. Disse outro, lá no fundo, com voz destorcida.
Então façam. Façam logo o que vieram fazer e nos deixem. Estamos aqui para celebrar a vida, tentei argumentar.
(...)

Dias depois, já recuperado, fui até umas quebradas tentar descobrir alguma coisa sobre aquilo. E conheci uns caras maus. Bem maus. Pensei, bom.... é desses caras que eu preciso para dar uma lição naqueles filhos da puta.

E dei outra festa. Os chegados e os caras maus. E lá pelas tantas, os motores roncaram. Eles chegaram. Já como os donos do pedaço foram entrando e dominando tudo como uma onda. Até que se toparam, os caras maus e os caras que se achavam maus.

Os caras maus não quiseram nem saber. E aquilo virou uma carnificina. Um conseguiu fugir, pelo bosque depois do quintal, do outro lado da piscina.

O problema é que agora os caras maus, pra sempre, estariam nas minhas festas.

Meu telefone tocou, numa manhã de quarta-feira. Estava no trabalho. Do outro lado da linha, ele se apresentou, era o fugitivo. Me alertava sobre o perigo que eu corria, ao estar andando com os caras maus. Logo ele.

"Nós só queríamos atenção. Os Seus Erros de Sempre gostavam de estar nos seus arrependimentos. Nas suas orações. Nos seus pedidos de desculpas. No seu medo. Na sua vergonha. No eco do seu silêncio. No seu fracasso. Gostávamos do status de poderosos. E era importante para nós mantê-lo longe dos caras maus, pois sabíamos que éramos poucos e fracos perto deles. E fazíamos isso muito bem, até que você mesmo os chamou. E agora só sobrou eu. E você vai ter que conviver com eles, agora. Lamento.

E o que eu deveria ter feito para não ter nenhum de vocês na minha festa, perguntei.
Ele, com tom de que não entendia o porque me falava o óbvio, mesmo assim respondeu: você nunca disse para irmos embora, que estávamos atrapalhando, que éramos indesejados. E como sempre fazíamos parte de tudo o que acontecia, achávamos que éramos importantes para você, responsáveis pelo seu destino.

E o que eu faço com os caras maus?
Não os convide mais!










Tuesday, April 17, 2018

Clarividencia

Perdi as referências
não consegui mais manter as aparências
e de repente minha vida não tinha mais aquelas coincidências

Eram tudo consequências
de fatos em sequência
que nos tiraram da mesma frequência

Paciência

Senti demais a sua ausência
e meu semblante era pura carência
e resolvi partir. Como quem escuta a sirene de emergência

Ao fundo soava. Ressoava. Ecoava a minha falência
E apenas me restava discursar com eloquência
Ao povo da minha Querência:

Persistência

Monday, January 30, 2017

Longe demais pra ser ouvido

De tanto gritar, perdi a voz.
E sem voz, perdi também a esperança.
Sem esperança, perdi a fé.
E sem fé, perdi a chance.

A chance que eu tinha de sair dali
e voltar a procurar outro poço para cair.
Porque o que eu precisava não era de ajuda pra sair
Eu precisava de ajuda para não cair.

O tempo passa diferente na superfície.
No escuro o tempo é tomado pela busca.
Na luz a realidade pode cegar os menos preparados.
E estar preparado pode não ser o seu caso.

E não era.

De tanto gritar, perdi a voz.
E sem voz, perdi também a esperança.
Sem esperança, perdi a fé.
E sem fé, perdi a chance.

A chance que se repetia
E que de novo eu jogaria
Pois no escuro ela não existe
nem eu
Me acalmaria
Se de fato eu a abraçasse
ou a ignorasse.

mas estava tão longe
demais para ser ouvido
e de tanto gritar, perdi a voz.

Tentei me aproximar aos poucos
e aos poucos a voz voltou
e mais próximo, com menos esforço
Minha voz se fez ouvida.
Eu só não sabia agora o que era certo dizer

Então apenas ouvi, como se não tivesse mais voz
E aprendi a ter esperança
Pude então rezar e retomar minha fé
E com fé tive a minha tão esperada chance.

A chance de ser ouvido.

Wednesday, June 08, 2016

Escolhas

Ah, as escolhas
Aprendemos na escola, em nossos filmes favoritos
Abrimos mão, ou não. Decidimos por amor ou instinto
E no silêncio escutamos a voz da culpa, o cleck do gatilho
A morte no recinto é o medo do invisível
Irrisório
Impossível
O barulho de vidro, do si sustenido
Sai de mim, que o que eu quero eu consigo
E se for o que eu quero, não será um castigo
Pois a escolha que eu quero

É ter você comigo

Wednesday, October 07, 2015

PROMESSA DE ANO NOVO

Certa vez, um ano velho resmungava seus sonhos não realizados. Ele já tinha idade para ter infinitas histórias, mas em seu repertório só se ouvia a mesma: de seus sonhos não realizados. E a cada ano que passava, um ano novo passava por sua vida, cheio de energia. Este ano passava e um novo vinha. Enquanto isso ele simplesmente envelhecia. Já se sentia incapaz de acompanhar o ano novo que chegava. Apenas o deixava passar, como quem abre passagem a uma cavalaria. Certa vez, enquanto resmungava seus sonhos não realizados, um ano novo chegou bem perto e disse prometer que ele seria o ano mais feliz da sua vida. Ainda cético, resmungou mais um pouco. Anos depois, seus sonhos já não eram mais os mesmos, pois aqueles, não realizados, eram histórias de um ano velho que passaria. 

Thursday, August 27, 2015

Pela atenção, obrigado.

Parei no posto para abastecer
a carteira de cigarros que estava no fim
a fumaça me faz espairecer
os dramas que são parte de mim
Ser, ou não ser
sim
mas sem sofrer
não estou a fim
E tipo assim
se é isso que você espera me ver fazer
quando eu disse que sou, eu menti
apenas para te sentir
apenas para te ter
atenção

Monday, May 19, 2014

Troco na troca

A gente se conheceu em uma festa e nossos sorrisos demonstraram certa intimidade logo nos primeiros olhares. Trocamos carícias e telefones. Trocamos as roupas nas primeiras semanas. Trocamos tantas ideias mesmo que não tivéssemos tantas ideias para trocar. Trocamos os dias pelas noites. Trocamos a TV pelo cinema. Trocamos de endereço e até de sobrenome. Trocamos os problemas por soluções. Trocamos o trabalho por lazer e o dinheiro por felicidade. Trocamos nossos medos por certezas e não deixamos de trocar também os destinos das viagens. Assim como quem troca a água do cachorro, trocamos livros velhos por livros usados.  Trocamos as críticas e piadas de futebol por atitudes e passeios no parque. Trocamos cartas e postais quando nos afastamos. Trocamos  presentes quando nos aproximamos.  E mesmo quando brigamos, trocamos conhecimento. Trocamos o tempo perdido pelo tempo que fosse necessário. E seguimos trocando. Assim como quem troca o brinquedo do cachorro. E, se naquela festa, o Dj não tivesse trocado a música, nós trocaríamos de festa, porque a única coisa que eu não troco é estar com você!

Friday, April 04, 2014

origens

Meu bisavô havia adquirido umas terras com um dinheiro que ganhou em uma ação trabalhista contra o Porto de Paranaguá. Para resumir, na época ele jogava as sacas do trem para o silo. Teve uma série de problemas na coluna e respiratórios. O laudo da perícia comprovou que a morte dele foi em decorrência dos anos de trabalho no Porto. Meu pai, que acompanhou todo o sofrimento do seu avô, estudou direito e trabalhou no processo do começo ao fim. Com a sua parte dos honorários construiu uma casa em uma das terras e passou a levar uma vida agrária de subsistência à beira do rio. Ali eu nasci e cresci. Jogando bola com as galinhas, andando de bicicleta com os cachorros, cavalgando da escola para a igreja. Com o tempo a civilização começou a se aproximar do sítio. Fumaças eram avistadas no horizonte frente ao pôr do sol. Um dia um grupo de engenheiros bateu à porta de casa. Fizeram uma série de perguntas a meu pai. Mostraram papéis, mapas, fizeram anotações e deram alguns tapinhas nas costas dele. Eu fingia fazer a tarefa da escola enquanto tentava entender aquele teatro. A hora do almoço chegou e a minha mãe fez questão de botar à mesa. Pratos para todos. Os engenheiros primeiramente ameaçaram uma despedida, mas recuaram ao sentir o cheiro do baião de dois. Gostaram tanto que perguntaram se a minha mãe não poderia ser a cozinheira deles enquanto realizavam uma obra ali por perto. Negociaram e ela topou. Eu ainda não estava entendendo. Dias depois os engenheiros já faziam parte da família. Dias depois uma estrada já fazia parte do sítio. Dias depois a minha mãe tinha um restaurante na beira dessa estrada. Embora eu tenha estudado direito e administração, hoje eu sou chef no restaurante. Mas ainda moro no sítio. Acabei fazendo amizade com um grupo de motoqueiros que sempre paravam ali em suas longas viagens a passeio. Acabei inclusive por comprar uma bela moto e a acompanhá-los quando possível. Com o tempo e a intimidade eles iam me convencendo a ir morar na cidade, pois lá eu ganharia mais dinheiro. Teria maiores oportunidades. Eu já conhecia a rotina da cidade nas minhas viagens a passeio ou de negociação com certos fornecedores. Não fazia sentido pra mim sair do sítio. Não saí. 

Monday, March 24, 2014

Anúncio de vaga:

Precisa-se de pessoa comunicativa, pensamento rápido, talentosa, determinada e com espírito de equipe.
Bom humor e resiliência são diferenciais. Deve saber resolver problemas e cortar caminhos. Ter visão espacial e ser pontual é fundamental para esta vaga. Saber dizer e ouvir “não” fará parte da rotina de trabalho.  
Salário a combinar com a roupa.
Benefícios: mesa e telefone. 
Terá liberdade para abrir e fechar janelas conforme o clima. 
Não inclui controle do ar condicionado.

Início imediato. Entregas para ontem não poderão sofrer atraso. 

Sunday, December 01, 2013

Mesa pra dois

Via no amor um prato de comida. Chegava quente e na primeira garfada já queria comer de colher. Saboreava ao mesmo tempo que não deixava esfriar. Conforme ia acabando, ia me satisfazendo. Às vezes guloso, ora sem apetite ou de dieta, adorava um prato de comida. E sentia amor nisso. Churrascaria, buffet, à la carte, em porção, fast food, caseira, mineira, baiana, gaúcha, colonial, típica, doce. Eu amava! O prato acabou com a fome, a fome que satisfez o prato. Até o dia que eu encontrei meu prato favorito. Achei o ponto certo do tempero, a temperatura ideal e a hora certa de servir. Em porções individuais, eu amo servir esse prato, em nossos jantares, que eu preparo pra dizer que eu amo você.

Friday, November 08, 2013

Enjoy

O dia inteiro eu sinto a sua falta o dia inteiro
O tempo inteiro eu quero te encontrar o tempo inteiro
Em pensamento eu te abraço em pensamento
A noite inteira eu quero te ver dançar a noite inteira
A gente gosta de ser feliz a gente gosta
Se eu apostasse não te ganharia, mas se apostasse
Não perderia
E se eu te procurasse não encontraria se eu procurasse
Passaria a vida
Sem saber que eu tinha medo sem saber

Que era segredo aquele sentimento era segredo

Wednesday, October 16, 2013

Changes


De eras em eras o mundo muda
Sem eira nem beira
Esfria, esquenta, seca, alaga,
Basta uma estrela lá no espaço
Há tantos anos luz que não se possa enxergar
Explodir e tudo começar, ou terminar
Sem que você possa perceber
Que aquela era
Se era
Mudou
Para melhor,  nunca para pior
Pois você ainda é o mesmo
Mas a era
Aquela que era
Já era
E mudou
E te deixou no mesmo lugar
No mesmo espaço
E se aquela estrela que brilhava, explodiu
Ela agora brilha mais, em pequenas estrelas
A te conduzir
Nesta nova era
Ainda mais sincera
E bela
Como aquela
Era
Que era
Ela



Tuesday, October 01, 2013

Abissal

Pegou uma foto para lembrar
Do que o coração estava a deixar
E foi pedir a Iemanjá
Um ponto para cantar
Pra na hora de voltar
Poder reencontrar
Tudo em seu devido lugar
Em qualquer noite de luar
Iemanjá vem lhe falar
Vai meu filho, para você te dou todo o mar
Pois na terra, não há mais o que amar.

Friday, September 20, 2013

7 dias no Tibet

a gente sofre
diz que sofre
acha que sofre
e sofre
por amor
por dinheiro
pela vida
se sofre
é importante
sofrer
e se morrer
de tanto sofrer
vai sobreviver