Saturday, March 08, 2008

Embaralhado

Não queria me aproximar
Eu não queria saber seu nome
Eu não queria me apaixonar
Mas quando vi, de você me aproximei
E seu nome perguntei
Quando vi, já era tarde, por você me apaixonei

E de repente nosso amor inflou
Nossa energia transbordou
Era tão lindo, parecia infinito
Era tão lindo o que o amor juntou

Eu e você, juntos de repente
De um jeitinho, assim entorpecente
Cheiro de rosas, espinho inconseqüente
Versão riscada de um refrão que me pertence

Não queria me aproximar
Eu não queria saber seu nome
Eu não queria me apaixonar
Mas quando vi, de você me aproximei
E seu nome perguntei
Quando vi, já era tarde, e por você me apaixonei

Eu tinha certeza que o futuro era certo
como um rio que pensa que vai reto
viver a vida, é o que te proponho
viver a vida não passa de um sonho
você disse

pra mim

assim

viver a vida não passa de um sonho
é como andar na superfície de uma lagoa congelada
como morar num castelo de cartas
de cartas marcadas

Paranóiafobia

Você chegou me beijando, me despindo, me empurrando. Me colou na parede, com minhas mãos e pernas amarrando. Me deixou indefeso e esperando. Você dançou, se distanciou, abriu a bolsa e retirou suas armas. Eu ansioso, estendido como uma estrela, aguardo que me ataque. Excitada, vira repentinamente e me atira a primeira faca, tangente à minha orelha... Antes mesmo de meu coração bater novamente outra faca é atirada e fincada ao lado do meu fígado. Podia sentir o frio da lâmina em minha pele. Fiiiiiu tóinhonhóin... Essa última fincou bem na virilha, fazendo com que eu me retorcesse interiro para não ser atingido. Ela ria como uma bruxa preparando uma poção no alto da torre de seu castelo, ouvindo seu corvo cantar. Se aproximou. Eu tremia. Pergunta-me: “gostou? Posso fazer ainda muito mais... agora é a sua vez”. Me beijou, com o fogo que aquecia o caldeirão, compartilhando meu nojo. Aos poucos me desamarrou, e desmaiou. Caiu, ou melhor, desabou ante meus pés. Me vesti, peguei-a no colo e debrucei seu corpo sobre o leito de sua cama. Esperei até que acordasse, sentado em uma cadeira de frente para seu corpo. Ela abriu os olhos lentamente e simplesmente não me reconheceu. Perguntou quem eu era e o que fazia ali. Respondi tão curto quanto a minha paciência no momento. Ela pediu desculpas e pediu para que eu me retirasse. Enquanto descia as escadas lentamente, pensava em todos os anos em que passamos juntos, as risadas, os momentos, as viagens, as loucuras, os presentes, as declarações... e ao abrir a porta do corredor para rua, dois carros da polícia me aguardavam para prender um estuprador, invasor e ladrão, que ela havia dado queixa. Com a vida normalizada, li um livro de autoria dela, daqueles romances que vendem em banca de revista. Li no ônibus a história de um amor entre um paciente terminal e uma enfermeira.

Wednesday, February 13, 2008

Golpe de vista

Achei que o porteiro estava se sentindo sozinho. Resolvi descer e fazer-lhe companhia, até que eu pegasse no sono. Minha pantufa não escondia minhas intenções. Acendi um cigarro e comecei perguntando sobre o síndico. Fumar era proibido, assim como ter cães e gatos. Qualquer ruído, até mesmo aquela gemidinha da vizinha, não era tolerado após às 22h. No natal a iluminação era exagerada. Não descobri nada mais que do que minha filha sofreu com aquele ex-namorado.
Seu Olimar, o porteiro, não era muito entendido de futebol, mas sabia tudo sobre números. Dominó, cartas, palitinho. Eu sempre era cercado por seus cálculos. O meu forte eram as charadas. Seu Olimar acertava, mas eu era rápido para inventar outra resposta.
Fumávamos o mesmo cigarro, coincidentemente, e no mesmo intervalo.
Depois de uma jornada de doze por vinte e quatro, minha insônia parece ter cura.

Antes de ir dormir, o conselho: “e cem metros rasos não dá pé!”

Monday, January 21, 2008

HORÓSCOPO

Sabe aquele ditado que diz "matar um leão por dia"?
Pois é, fui atingido!

DENTRO DE MIM

Dentro de mim
há oito braços
pernas curtas
outras vezes longas
um playgraund
uma piscina
uma cancha poliesportiva
uma pista
Há a natureza
um mar transparente
estrelas cadentes
um espelho
uma jaula
uma descida
um leão
uma montanha
um bar
um turbo
o seu porta-retrato

Dentro de mim
há tempos
há tudo isso
dentro de mim

Wednesday, January 02, 2008

Feliz Ano Novo

Não pulei onda
não comi uva
não estourei champanhe
não soltei foguete
não gosto de lentilha
nem de passas
não como porco
nem tender
não conheço iemanjá
nem outro preto velho
não uso roupa branca
e nem tenho roupa nova

mesmo assim o ano virou
tudo se renova
muito se pede
se agradece
e brindamos

Um Feliz 2008!

Friday, December 14, 2007

Pode acontecer com você

"Cansei de ser chato. Tenho que ser mais pra aprender a não cansar."

Sunday, December 02, 2007

Melhores amigos.

Hoje eu resolvi levar minha solidão para passear.
Dei a ela um capacete e a coloquei em minha garupa.
Fomos conversando sobre a paisagem e sobre os curitibanos.
Cantávamos um refrão repetidamente.
Voltamos para casa e voltamos aos nossos papéis.
O meu de solitário. O dela de solidão.

Friday, November 23, 2007

será feliz

Enquanto você testa
meus pontos fracos
e eu te mostro
os meus limites

enquanto tento
e não consigo
você mostra
que é possível

enquanto seu sonho
é a minha realidade

vamos fazer de conta
que tudo é um conto
e o nosso final
será feliz.

Wednesday, November 14, 2007

sua importância

Eu queria em um violão
depositar minha overdose
Peço desculpas à memória
Mas preciso esquecer
O tamanho da dose.

Derramo minha força
Perco meus instintos
Falo qualquer coisa
Estou preso

Fui largado por você

Tenho que ficar preso
À minha liberdade
E nela
ser feliz

É só o que faço
Sem você.

Wednesday, October 24, 2007

Um blues de fechar o olho fazendo careta.

Bíblia Sagrada

Em um sítio arqueológico na região de Jerusalém, foi encontrada uma carta, supostamente escrita por Deus, quando enviou Jesus. Ao decifrá-la, a tradução é próxima desta, dizem:

"Queria estudar o máximo q podia, para poder trabalhar o suficiente. Até dizer que era feliz. Finais de semana nos livros e incansáveis horas extras. Mulheres e carros. Mas seu preço era caro. Para ter dinheiro e se drogar. Sair deste inferno que é aqui. Televisão e escravidão. Moda e poluição. Guerra e solidão.

Vendeu a vida e ganhou muito dinheiro, virou cabra macho, executivo, pistolero, doutor, bandido.

Esse meu filho é um perigo!"

Wednesday, October 17, 2007

Frases submersas

Meu dia foi como o seu
depois do trabalho
saí tomar uma cerveja
que desceu
uhummmmmm
que gosto de vida.

Sunday, September 09, 2007

Contatos imediatos

Engenheiro por formação, não tardou a ser bem sucedido. Com um histórico escolar repugnante, já era indicado pelo reitor aos melhores centros de pesquisa ainda enquanto estagiário em uma repartição pública.
Modelo descoberta num fim de semana na praia - que lhe rendeu o término do namoro - adora gastar seu dinheiro com obras de arte. Estuda a arte e sua rica história. Coleciona desde impressionistas à surrealistas. Sempre que vem ao Brasil visitar a família, não perde a oportunidade de visitar o Largo da Ordem. O engenheiro responsável pela obra de seu museu era um dos melhores do mundo. O preferido de Niemayer. Disse uma vez numa entrevista a uma revista feminina (dotava de uma beleza helênica além de se portar sempre muito elegante) que “com um histórico escolar repugnante, já era indicado pelo reitor aos melhores centros de pesquisa ainda enquanto estagiário em uma repartição pública”.
No vernissage que inaugurou o museu homônimo ao pai da modelo internacional, a anfitriã e o engenheiro foram fotografados juntos várias vezes quando conversavam e trocando muitos toques e risos passadas algumas taças de champanhe. No dia seguinte eram capas de revistas e o principal assunto nos salões de beleza. Nenhum flagrante e muita especulação.
Assim que amanheceu, a assessora de imprensa da modelo ligou para o engenheiro e agendou um almoço numa pousada ao pé do pico Marumbi. Já tinha conversado com a cliente, que aceitou o plano. No horário combinado, os dois helicópteros se revezavam ao pousar. Conversaram por alguns minutos sobre o dia anterior, sobre o projeto e um pouco sobre o futuro. Ela escolhe a entrada. Ele sugere a carne e ambos chegam a um consenso quanto ao vinho. Durante a refeição apenas futilidades sobrevoam a mesa. De um lado ao outro. Futilidades. De dar enjôo até em monge. Terminado o almoço, o metre sugere uma sobremesa divina. Ela engasga e, como se fossem amigos a anos, anuncia que está grávida. Ele, que já se via no altar com a modelo, para de respirar, fecha o semblante e dá mais uma servida colherada na sobremesa. Demora a mastigar. Aproveita para fingir pensar numa pergunta, numa reação, mas no fundo está utilizando de toda a força para enforcar até a morte a modelo. Ela percebe que precisa se explicar e comete o que seria um equívoco: “é sério. Estou grávida! E preciso viajar, em breve.” Ele mantém-se quieto esperando mais explicações. “pode não acreditar, mas fui abduzida. Minha família sempre teve contato com extraterrestres. Por isso sou bonita. Por isso fui descoberta. Por isso o amor pelas artes. As artes são a representação do inconsciente do abduzido. Uma mensagem, uma comunicação extraterrena não com os humanos, mas sobre os humanos entre os visitantes de outros planetas. Cada um usa uma linguagem através de nosso inconsciente.”
- Táh! E para aonde vai? Quando terá de viajar? E o que eu tenho a ver com isso?
- Ainda não sei, mas preciso que tome conta do museu.
- Não posso. Tenho muitos projetos importantes.
- Agora essa é a sua missão. Já tem todo o dinheiro que precisa.
Assim que voltaram aos seus cotidianos, o engenheiro recebe a visita de um alienígena em sua casa. Dizia precisar do engenheiro. A nave tinha problemas e não conseguiam voltar. Omitiu não ser mecânico e barganhou a modelo pelo concerto. Pela contraproposta teria que ir junto. Foi.
A assessora de imprensa foi internada como louca após tentar explicar honestamente o sumiço dos corpos. Passou a pintar e a esculpir sob o efeito dos calmantes. Descobriu seu estilo, ganhou sua fortuna e conquistou sua liberdade.

Monday, July 23, 2007

Tays

Procurava coisas novas para minha vida. Entrei num sebo que nos fundos tinha um balaio cheio de fotos. Algumas famosas, outras nem tanto. Entre tantas encontrei a sua. Qual seria o seu nome? Quantos anos teria? Onde mora? Será que fala aquelas coisas que gosto de ouvir à cama? Enfim, olho para fora e já acabou o dia que eu nem vi começar. Eu tento lembrar de ontem pra poder te ligar, continuar a rir das mesmas piadas e poder dizer que te conheci numa foto (que eu tinha encontrado entre tantas num balaio). Mas como explicar? Como explicar? Vou voltar a dormir. Amanhã volto ao sebo trocar sua foto por algum livro com mais personagens. É o melhor que faço.

Wednesday, July 11, 2007

ZUMBI

Para eu poder crescer, matei os fantasmas que me perturbavam.
Então eles passaram a aparecer no escuro antes de eu dormir.
Tinha que dormir, mas eles apareciam no meu sonho para dizer que não eram fantasmas. Eram a minha inconsciência.
Não tenha medo. Mate.
Isso, mate.
Mate seus fantasmas.
Aí, então comece a ter medo.

Wednesday, July 04, 2007

Um alienista.

"Só sei que eu estava tão loco ontem que eu realmente ouvi conversas alienígenas."

Wednesday, June 27, 2007

Cientista Maluco.

Resolvi passar uma noite em claro, montando diversos crachás. Uns azuis claro, com a identificação DW265, outros azuis mais escuros escrito UY743, alguns rosa LZ559, um tanto de verde SQ489, sobrou tempo para montar um punhado de laranjas HFT3 e uns vermelhos O+777. Fui bem cedo até a Rua XV (para quem não conhece é o local mais democrático do Planeta, onde você pode encontrar todo tipo de pessoa a qualquer momento em toda a sua extensão. Dizem que é nessa rua que se realizam as pesquisas eleitorais das quais você nunca participa e que acabam por decidir o resultado das eleições). Passei o dia indo de lá para cá distribuindo os crachás, convencendo as pessoas a nunca mais tirarem e sempre andarem com ele à mostra. Comecei a monitorá-las à distância. Alguns montaram grupos de encontro de determinado crachá pela internet, outros montaram festivais de tudo quanto é coisa a fim de misturar todos os grupos. Chegaram até a montar um movimento de “troque seu crachá com a primeira pessoa que encontrar de crachá diferente e sinta um outro lado da vida”. Mas a maioria já se sentia como o reflexo da imagem do crachá e evitava esse tipo de atitude. Formaram-se bairros, bares, escolas, centros culturais, religiões, universidades, economia, tudo peculiar a cada grupo de crachá. A quantidade de pessoas nem sempre queria dizer que determinada cor era mais evoluída. Nem a proporção de sexo determinava qual sigla era pior. A combinação dos números também não indicavam sorte ou azar. Nada melhorou ou piorou. Mas a intenção com certeza não era essa. Eu só queria que as pessoas tirassem os crachás assim que me dessem as costas!

Wednesday, June 13, 2007

JANELA INDISCRETA

Eu sei que muita gente já escreveu sobre isso, mas eu não posso deixar de relatar o meu ponto de vista.
Admirava a lua, como todas as noites daquele seco inverno. Iluminava a rua, os telhados, as casas. Já se fazia a hora de ficar acordado. Como se conversasse com os anjos. E como um reflexo na água, eu vejo a imagem da sedução. Um corpo perfeito, meio escondido, distraído, por trás da cortina, adora uma água gelada nas madrugadas secas de inverno. Eu queria ser aquela sede. Passei a observá-la. Sempre com sede. Sempre interrompendo minha conversa com os anjos. Notei sua sombra que parecia me vigiar. Te fazia insinuar. Me fazia acreditar, que era você quem estava a me observar.

Tuesday, June 12, 2007

Um minuto de infelicidade que pode durar uma vida toda...

Trouxe a lua nova
para te iluminar
como uma estrela cadente
a me guiar
dois corações carentes
a se encontrar
nesta noite fria
num balcão de bar
eu seria um estúpido
em te amar
jogue suas cartas
e continue a jogar
não me importo em perder
só não quero te largar.

Saturday, June 09, 2007

Por sorte!

Peguei a estrada errada
com paisagens lindas
eram pensamentos tão sinceros
eram pensamentos tão vagos

Parecia tudo tão certo
naquela estrada
nem me parecia mais errada
com paisagens lindas
que deixavam vagas na memória
que me fizeram lembrar você

naquela estrada errada